quarta-feira, 20 de junho de 2012
Boemia
Ciro Monteiro, o saudoso cantor, foi visitar o amigo Lúcio Schneider e chegou alegríssimo, festivo, eufórico, alvissareiro:
– Mas, ô Schneider! Eu não sabia! O Rio de Janeiro é lindo! Botafogo, a Glória, o Flamengo! Que lugares mais deslumbrantes!
O Lúcio, achando aquela explosão esquisitíssima:
– Você ficou doido, Formigão? Tem uma porrada de anos que você passa por esses lugares e nunca notou?
– Mas é que eu só passava de noite. Hoje passei de dia, pela primeira vez...
A vingança
Nos tempos magérrimos, na pré-história da carreira luminosa feita com a ajuda das “mulatas que não estão no mapa”, Oswaldo Sargentelli morava num apartamento desses catre-penico-bico-de-gás.
O contrato de locação era meio de boca e o senhorio, aproveitando-se disso, aumentava o aluguel todo mês, sem que o inquilino pudesse fazer algo para evitar a exploração.
Mas um dia pôde. Sargentelli ficou na calçada em frente ao prédio olhando interessado um ponto qualquer da fachada. Foi juntando gente.
– O que houve? – perguntou um popular ao Sargento.
– Não está vendo? Olha lá, bem naquele canto. Uma fissura. E o prédio está meio inclinado, reparou?
– É mesmo, rapaz! Esse troço pode cair a qualquer hora!
Meia hora depois chega a polícia. Inteirada do perigo, isola o quarteirão. Chamam a Defesa Civil, os engenheiros do Estado, o Corpo de Bombeiros.
Comprovam, mesmo sem maior investigação, que o prédio corre sério risco de desabar e deve ser evacuado e interditado imediatamente.
“Prédio pode ruir a qualquer momento”, diz a manchete do jornal O Dia. As primeiras páginas dos outros jornais gritavam mais ou menos o mesmo.
Famílias ao desabrigo, reunião de emergência com o secretário de Obras, que garante não haver perigo iminente.
– Os engenheiros estão estudando o assunto com o maior cuidado! – disse a autoridade.
– Isso é um descalabro! Um desaforo! – berrava Sargentelli. “E os preços extorsivos dos aluguéis que pagamos? Só funciona um elevador, imagine! Vou processar o condomínio!”.
E se mudou do cabeça-de-porco, deixando o caos instaurado.
Brazucas em Nova York
O ator Agildo Ribeiro estava andando de táxi em Nova York. Os motoristas de praça de lá são obrigados a afixar no painel retrato, nome e número de inscrição no departamento de trânsito local.
Agildo olhou a foto do homem e teve de conferir com o original para se certificar.
O sujeito usava aqueles bigodes de Salvador Dalí – longos, pontiagudos e quebrados para cima como dois chifres finos de touro miura.
Em suma, um cara estranho e que, ainda por cima, ouvia Vivaldi solenemente no toca-fitas do carro.
– Isso é coisa de viado! – comentou com o companheiro de viagem.
– Só pode ser! – concordou o outro. “Esse cara, além de esquisitísão, também ouve música de boiola. Com certeza deve gostar de agasalhar croquete...”.
Num dado momento, o carro desembocou numa praça – a Washington Square – e o ex-parceiro do recalcitrante Topo Gigio fez uma observação:
– Parece a Praça da República, em São Paulo.
O motorista abaixou o volume das “Quatro Estações”, de Vivaldi:
– Absolutamente! – disse em português do Bixiga. “Esta praça é muito mais bonita. Até quando neva”.
E voltou a aumentar a música com igual solenidade.
Coronel Feliciano
Princesa Isabel, cidade do alto sertão da Paraíba, terra onde se aquartelava a tropa cangaceira do temido Zé Pereira, berço da saga biográfica do coronel Feliciano, homem de muita fé, mas só em si mesmo. Homem de truculência e bizarrice. Homem para homem nenhum botar defeito mode continuar vivo.
Homem que só saiu de Princesa Isabel uma única vez para visitar a Feira de Caruaru, de onde partiu para sempre uma hora depois de arribaldo voltando pro lombo do trem. “Chega de tanta grandeza”, ele disse.
Homem que não acreditava que a Terra fosse redonda e se mexia. “Coisa de padre pra contar história. Se fosse redonda e se mexesse ia ter indecência. Os home tudo por cima das muié”.
Homem que odiava padre e santo e que negava esmola a cego. “Vá pedir dinheiro pra quem te cegou, peste!”.
Homem que negava a existência da Arca de Noé com uma argumentação imbatível:
– Uma vez teve um circo aqui. O elefante comeu sozinho umas cinquenta arrobas de resto de cana. Imagine um barco cheio de bicho por quarenta dias e quarenta noites! Onde o velho ia guardar a comida dos animais?
E concluía:
– Só de piolho conheço umas dez raças diferentes e uma vez quis pegar um casal de rolinhas, só peguei macho.
A mulher do coronel Feliciano, ao contrário do marido, era beata de ralar joelho, vivia na missa, vivia rezando.
Na grande seca de 1936, toda a população se reuniu numa procissão para pedir água ao céu abrasador.
O coronel pediu a seu modo: pegou uma imagem de São Judas Tadeu – um “calunga”, como ele chamava –, amarrou no talo de um rojão – na “taboca”, como tratam o rabo de foguete por lá – e disparou a peça de artilharia que se espatifou, junto com a imagem, a uns cem metros de altura.
Coincidência ou milagre, no dia seguinte desabou o maior pé-d’água do sertão. Explicação prática do coronel:
– Uai! E não era pra chover, cabra? Já imaginou um pipoco do pé de ouvido a duzentos metros de altura! Tinha mais é que tomar providência!
E não parou mais de chover, o açude estava por estourar. O coronel encheu um saco de santo, foi no açude e, segundo ele, “pipinou os calungas de metro em metro” e avisou pras santificadas imagens:
– Agora é com vocês! Se estourar desce tudo por água abaixo. E vocês descem junto.
Dia seguinte parou de chover.
A porca
De todos os sambistas contrários à prática do sexo oral, o que mais alardeava seu ponto de vista era o Mestre Marçal. Quando perguntado sobre o assunto, ele reagia energicamente.
– Que é isso, meu sobrinho, eu sou responsabilidade.
Uma vez, um músico que ensaiava com ele falou só pra provocar.
– Eu faço sexo oral e não acho nada demais.
Marçal reagiu com uma tirada genial:
– Então tá bom. Quando você for na minha casa, vai beber água na mão.
O rapaz não desistiu:
– Mas e se a mulher quiser fazer sexo oral, você vai impedir?
Marçal balançou a cabeça e respondeu:
– Aí tudo bem, a porca é ela.
quinta-feira, 14 de junho de 2012
Mentira estratégica
Da esquerda para a
direita, Murilo Mendes, Anibal Machado, Jaime Ovalle, Manuel Bandeira e Augusto
Frederico Schmidt
Naqueles tempos em que Ipanema era uma quase província, a
praia uma imensa faixa de areia, iluminada à noite por postes americanos, os
prédios baixinhos, o trânsito de poucos carros e toda a gente andava sem medos,
a casa de número 487 na Visconde Pirajá, com suas janelas verdes e suas portas
abertas, era ponto de encontro marcado dos mais diversos artistas.
Seu proprietário era o escritor Aníbal Machado, seis filhas,
13 livros e centenas de amigos, um homem de rara humanidade e autor das mais
belas e poéticas páginas da literatura nacional.
É lembrado até hoje por sua capacidade criativa e de agregar
e manter à sua volta todos os talentos possíveis que marcaram e surgiram
naquela época.
Foi essa Ipanema mágica que acolhia as famosas “domingueiras
do Aníbal”, em que todos eram bem vindos e discutia-se Freud e Kafka com a
mesma energia com que se dançava foxtrote e boogie woogie.
Nesses saraus, era possível encontrar Lúcio Cardoso, Otávio
de Faria, Oswaldo Goeldi, Marcelo Grassman, Paulo César Saraceni, Paulo Autran,
Tônia Carrero, Thiago de Mello, Rubem Braga, Fernando Sabino, Jaime Ovalle,
Millôr Fernandes, Paulo Mendes Campos, Ivan Junqueira, Carlos Heitor Cony,
Leandro Konder, Barbosa Lima Sobrinho, Eneida, Otto Maria Carpeaux, Jorge
Amado, José Olympio, o então estudante Ivo Pitanguy, a bailarina Tatiana Leskova,
pintores, escultores, arquitetos, atores, poetas, cronistas e talvez Deus
pessoalmente, de papo ferrado com o capeta. Porque a casa rescendia concórdia,
amizade, trégua e paixões várias.
Evidentemente, neste bando misturado apareciam indesejáveis
e tinha sempre um que particularmente desequilibrava a agitada quietude da casa
com porres avassaladores. Anibal o suportava com a mais santa das paciências,
não reclamava nunca.
Um dia, o inconveniente aparece numa manhã de segunda-feira
na casa do doce escritor antropofágico. Estava sóbrio e preocupado:
– Anibal – disse ele. “Me contaram que houve algum problema
comigo aqui, no sábado: que eu tomei um porre federal e fiz alguma coisa
errada. Espero não ter te ofendido.”
Anibal, a voz calma, moderada, pretendeu consolar o
visitante:
– Não, meu amigo – a voz esticada – de jeito nenhum. Exagero
das pessoas. Você apenas evacuou no meio da sala.
Era mentira do escritor. Mentira estratégica que afastou o
inoportuno para sempre.
Rosa dos Ventos
Amaro Machado, arquiteto, navegante e piloto de avião,
comprou um veleiro, modelo Arpege, e estava com problema de nome, até que
decidiu:
– Vai se chamar Rosa dos Ventos.
O também arquiteto Marcos de Vasconcellos ponderou:
– Tá ficando maluco, Machadão? Esse nome é tão óbvio que
devem ter pelo Brasil afora milhares de Rosas dos Ventos.
Ele teimou:
– Pois vou botar Rosa dos Ventos.
– Pirou o cabeção, porra, pirou o cabeção? A Capitania dos
Portos vai até rir na sua cara! – insistiu Marcos de Vasconcellos.
– Não quero nem saber. Vai ser Rosa dos Ventos.
E foi à Capitania registrar o barco. Quando voltou, a cara seriíssima,
trazia um embrulho. Eram as letras de aço para fixar na popa. Ficou Rosa dos
Ventos mesmo.
Todo mundo que pensava no nome, raciocinava feito Marcos
Vasconcellos e desistia.
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